terça-feira, 12 de junho de 2018

Doce como fel.

Das mentiras todas
Só gosto das mais cruéis
Se não for para doer
Nem tente minha atenção
Das tuas invenções, tão doces
Azedaram meu paladar
Estragaram meu café
E brocharam meu interesse
Tua mentira desandou
Errou a medida teu melado
E azedou meu coração
Azia é o que eu sinto por você!

Do verbo ser:

Sou uma mulher de avessos, de desertos, de geleiras e verões intensos.
Sou uma mulher de muitas viagens, posso ir de norte a sul em segundos.
Fugir do leste rumo ao oeste selvagem sem deixar rastros. Não me basto, não me caibo e não me acho... Minha desordem é mais que mental, é social, é moral, é demasiadamente humana e por isso me fere.
Sei que sou estranha... me afasto dos comuns, me apego aos difíceis, detesto bons modos e detesto mais ainda deselegâncias, coleciono manias incompreensíveis, adoro incertezas e fujo dos que não me convencem à primeira vista.
Queria inverter a ordem das coisas, seria mais fácil gostar do que todos gostam e me dar por satisfeita com o pouco que ainda tenho. Queria sentir paz e não essa enorme aflição que me rouba o sono e as horas. Desejo a tua boca, meu paraíso particular, minha maldição, minha morte anunciada e redenção.
Minha sede de encontrar não sei o quê.

(Mariana de Almeida).

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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Do livro em branco.

Não quero expor minha miséria
Não quero expor minha frágil existência
Não quero expor meus sonhos todos que ardi em febre
Prefiro falar do tempo, do dólar, do livro, de deus
Das imensas horas nas filas do supermercado em vão
Das mães que contam suas aflições na porta das escolas para outras mães
Dos homens mudos na sala de espera dos consultórios médicos
Das fofoqueiras que contam seus casos nos salões de belezas
Por que hei de contar das noites que me foram roubadas?
Por que hei de contar como fui roubada porque era ingênua demais das doenças desse mundo?
Por que hei de contar como sofri terrivelmente calada de solidão enquanto você gargalhava estupidamente ao meu lado?
Algumas miserabilidades não se compartilham...
Levamos no peito em silêncio para o fundo da terra
E com isso apodrecemos um pouco mais a natureza.
Por que iria contar lhe dos dias que não deveriam ter existidos?
Por que lembraria dos dias que quis te matar e não matei? Deveria?
Para culpar-me do que não fiz? Ou do que nunca deveria ter feito?
Não, sigo só, ouvindo o burburinho insuportável do mundo que passa na TV
Sigo só, planejando o que farei do meu eterno silêncio que inevitavelmente encontrarei
Dia desses, serei só vastidão em alguma memória do tempo.


(Mariana de Almeida).

São Paulo.

São Paulo
Fria, triste, cinza
Concreta como eu
Desigual como eu
Debaixo de cada viaduto robusto
Guarda gente frágil como eu
Guarda o frio gélido das madrugadas como eu
E guarda um rio de lágrimas quentes
Que inundam meu rosto figurante;
São Paulo
Me entristece profundamente
Porque onde guarda tesouros capitais
Tritura retirantes cinzas vindos de galáxias cinzas
Que são deixados a sós às ruas cinzas
Entre os prédios e muros também cinzas
E sob o céu cinza da nossa Paulicéia louca elitista
Dura, fria, concreta e tão sozinha
Grita por nós para derrubarmos os muros
E semearmos, novamente, homens e cores.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A sede.

De mim, só tenho pedaços 
Partes guardadas sem tempo datado
Fui ficando com o que dava
Ora uma pedaço de perna
Ora um braço quase intacto
Ora uma parte do peito;
Outra vez tentei salvar meus lábios
Mas me traíram e calaram-se...
Tentei arrancar minhas mãos
Mas como são firmes e grandes
Não se extirparam dos braços não;
Fiquei com elas
Depois até me foram úteis
Mas os cabelos arranquei todos
Fio por fio enquanto tramava
Um acordo com a vida... eu queria a minha parte!
Eu pensava e por mais que tentasse cessar
Não conseguia parar...
Então machuquei minha cabeça,
Olhos, ossos, estômago e rins
Torturei o coração, queria nocauteá-lo de vez
Mas errante e tolo, ele resistia e continuava sua melodia
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum....
E assim perdi a longa batalha
Fiquei com a vida sem nenhuma garantia
Juntei os pedaços todos dentro de um caderno
As mãos escrevem passagens sobre os dias
Renascer da morte em cada linha escrita
É resistência dos versos em pulsar
Colher poesia onde só tínhamos solo árido e sertão;
A sede quem nos fez enchentes.
(Mariana de Almeida).


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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Eu não poderia amar aquele homem.

   Eu não poderia amar aquele homem, eu bem que tentei, até que ele me seria útil e me faria companhia nas horas mais vazias, fizesse eu o que fizesse, lá estaria ele me esperando e eu sem interesse algum de lhe ser fiel, não da carne, mas dos pensamentos, da carne também, cá entre nós. Faltava algo de essencial naquele homem, um fogo, um sarcasmo, um "feeling" sobre as coisas mundanas que me aterrorizam tanto. Detesto pessoas pacatas, mornas, sem ódio, sem dor e sem guerras. Enfrentei algumas e me apeguei à elas e aos inimigos mais cruéis. Aquele que lhe talhe a carne é o mesmo que a lambe e costura depois com resignação. Eu quis a paz, a conheci algumas vezes, mas me fazia pensar em suicídio enquanto na guerra é preciso estar atenta para sobreviver.
   Eu não poderia amar aquele homem porque ele era bom e eu sou má, eu me canso das coisas boas, eu me canso do luxo e eu me canso de ser feliz. Eu não esqueço da minha dor de estimação, foi ela quem esteve comigo enquanto eu devia ser uma menina. E aquele homem cheio de ternura e bondade nos olhos não poderia entender quem não sou, ele buscaria sempre pela outra. Não, não posso enganá-lo, não quero. Não quero mais.
   Ele dizia amar minha poesia, e eu sabia que seu amor era inocência e beleza, por isso ele não poderia entender. E eu o odiaria para sempre por isso. Tudo desfeito, eu não poderia jamais amar aquele homem, porque do amor eu só conheci a dor e o desejo de amar sem medo do depois.
   Eu não poderia amar aquele homem porque ele era bom e da bondade só me resta horror.


(Mariana de Almeida).




terça-feira, 20 de março de 2018

Nada.


Quando era pequena
E o mundo parecia tão grande
Tudo era infinito e distante
Quase palpável;
Quando era grande 
E o mundo se tornou tão pequeno
Tudo era finito e frágil
Quase quebrável; 
Agora que sou tão minúscula
Um grão de areia na imensidão
Um átomo de qualquer superfície
Feliz por saber-me inútil e só
E o mundo nada que me satisfaça;
Não me dói mais...
Nem ser levada pelo vento num sopro
Nem ser esquecida sob o peso da pedra;
Também não me dói mais sua ausência
Talvez sua presença até me incomode
Tudo é uma perspectiva do nada
Nada, nada...do nada que significa
Simplesmente não ser nada e não desejar nada
Que altere o nada dos fatos.

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