sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nosso amor.

 
Nosso amor foi bonito
Nosso amor foi quente em pleno inverno
Nosso amor foram notas de Tom Jobim
Nosso amor foi vermelho em plena era Temer
Nosso amor ainda acreditava em poesia
Em música, em dança e outras alegrias;

Nosso amor foi bonito
Amor amigo, amor digno, amor
Desses que acabam sem dizer adeus
Desses que saem sem bater a porta
Desses sem palavras, sem mágoas
Desses que deixam no silêncio apenas
Aquele barulho incessante das ondas
Que quebram na areia e renascem o mar.
 
(Mariana de Almeida).

 
 
 
 
 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A roda.

 O que é a vida
Senão essa dança insana
Essa eterna ciranda
Sem ponto certo de partida
Sem ponto exato de chegada
Tudo é dança, roda, ciranda
Todos de mãos dadas
E a roda nunca se cansa
Dessa ciranda ora a favor dos ventos
Ora contrária a ele
Encontros e desencontros,
Enganos e desenganos
Corpos e cantos
Olhos e silêncios
E a roda gira sem cessar
Esse contínuo movimento
Lento, lento, lento.
(Mariana de Almeida).
 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Má sorte.

Prometia mundos e fundos;
Queria viajar até Cuba, Chile, Veneza e até a Lua;
Vivia de sonhos, era o alimento dos dias
Iludia as pessoas para amenizar sua agonia
Acreditava em loteria e rituais de magia
De sonhos líricos e surrealistas
Misturados a vinho e poesia
Realidade cruel essa vida
De ressaca que não passa
E sonhos que não acontecem;


Os números o engaram
E os magos o traíam
Enquanto ele prometia ajudar
A moça sozinha da cidade.



 (Mariana de Almeida).

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Eu vim para incomodar.

Eu vim para incomodar
Não me calo sem antes gritar
Eu vim para incomodar
Não me abalo sem antes cantar
Sigo a melodia até o dia que dá
Eu vim de longe só para te chamar
Vem com a gente incomodar
O coro dos contentes... lá ♫lá ♫lá
Que tocam as mesmas notas sós;
 
Eu vim para incomodar
Não danço sem antes cantar
O novo refrão dessa geração
Dedo na ferida da sua hipocrisia
O sonho deles não é o mesmo da gente
A luta da gente é libertar todos os homens
Das armaduras do passado que condenam
Nossa gente inocente até o presente
Eu vim para incomodar
Não me calo sem antes gritar
Pelo seu nome e de todos os outros;
 
Desligue a TV e venha você mesmo ver
Que o direito da gente é poder escolher
Levante do sofá e toque o céu
Com as suas mãos ou com as pontas dos pés
Eu vim para incomodar
Por isso vim te chamar
Levante e lute pelo seu direito de pensar
Em casa, na rua, na lua ou em qualquer lugar
Não espere ver o sol sem antes ver o luar
Venha comigo também incomodar!
 
(Mariana de Almeida).
 
 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Amarelo.

Folhas secas
Ferro fundido
Terra ferrugem
Foice perdida
Luta sem glória
Guerra sem vitória
Tempo sem história
Passado de volta
Circo sem risadas
Tanques de drogas
Bombas de silêncios
Amores imaginários
Desordem e acasos
Roupa sem nudez
Pés com sapatos
Comidas em latas
Botões e alarmes
Sirenes e assaltos
Ruas e carros
Homens apertados
Esquinas disputadas
Semáforos congestionados
Zumbis por toda a parte
Batem na janela do carro
Por um centavo de atenção
Que você nega com satisfação.
Flores murcham
O ar não é puro
O sorriso é banguela
E o sinal é amarelo
Constantemente amarelo.
 
(Mariana de Almeida).
 
 

Dia das crianças.

Não
Não quero lembrar a criança que fui
Não
Não posso
Não quero
Não a reconheceria
Na multidão dos desajustados
Amputados de almas que passam
Desafinando o coro da multidão;

Eu a matei num final de abril
Eu a matei sem nenhum remorso
Sua doçura era nociva para esses dias
Ela queria ser bailarina
Ou cantora de cabarés
Poetisa das manhãs frias
Queria vencer a neve
Fazer o fogo com seus galhos tímidos
Aquela menina sonhava demais
Sempre sorria com qualquer desenho de nuvem
Brincava com qualquer formiga na grama
Contava segredos ao seu cachorro
Ela ousava acreditar;

Por isso a matei sem piedade
Num final de tarde de abril
Eu a convidei para brincar
E ela aceitou, não sabia nunca negar
Fomos correr num terreno abandonado
E cheio de armadilhas e buracos
Quando num momento de delírio e distração
A empurrei dentro de um poço sem fundo
Observei ela cair rodopiando feito bailarina
Pro fundo do seu abismo de candura
A matei porque um dia me mataram também
Com rituais de crueldade e sadismo
Não me deixaram nenhum sonho vivo
E matar hoje é meu único ofício;

Não
Não quero lembrar a criança que fui
Não, não posso, não quero
Ressuscitar os mortos pode ser perigoso
Além de muito doloroso
Deixa a menina que eu fui em paz
Brincando entre as nuvens de algodão
Que ela mesma desenha no céu
Deixa ela dançar seu ballet de amor
Onde tudo pode ser e acontecer
Deixa a menina que eu fui em paz
Deixa, deixa, deixa ela em paz...

(Mariana de Almeida)


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Fel.

Resto de amor é como fel
Pior que o gosto amargo
Do adoçante cancerígeno
Que se instala na boca
Estraga o paladar
E mata o grão do café
Depois de torrado e triturado
Não bastou virar pó
Tem que amargar
Até a última gota
De saliva
Entre os dentes
As papilas gustativas
Até a boca do estômago
Azia foi o que restou
Daquele doce amor.

(Mariana de Almeida).




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Bordado de sangue.

Mamãe era uma bordadeira de mão cheia
Bordava os mais belos sonhos e desenhos
Nos seus doces tecidos de bordar
Bordava passarinhos, bolas, flores e bebês
Toda sua doçura ela registrava ali
Na vida nem sempre há espaço
Para tecer e bordar algumas ternuras
Há delicadezas que só se revelam na arte;

Enquanto de longe eu a ouvia bordar
Algo me dizia que estava tudo bem
Restava algumas tardes de paz antes do final
Eu, filha da ordem contrária, do medo e do caos
Nunca tive talento com desenhos, linhas e agulhas
Minha doçura me traía a cada não dessa vida
Pra mim tomei as palavras, comprei a crédito
E nunca as paguei, exceto com minha tinta de sangue
Que extraio dos pulsos para manchar alguns papéis.

(Mariana de Almeida)



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