quarta-feira, 15 de julho de 2020

Palavra

Palavra
É lavra
Na pele do tempo

Metal extraído
Do fundo da terra
Lavado na lágrima

Reluz
Fere
Liberta
Ou mata

A fome
A terra
O poema
Ou o homem.


Mariana de Almeida.

2020

Medo de morrer

Medo de continuar

E esquecer

O antes;

As flores

O pólen

O Sol

A liberdade

Tudo que era quando eu não sabia ser.


Mariana de Almeida.

O afeto.



   Cada dia que passa lembro-me mais das pessoas que já amei, como passaram e deixaram marcas em mim. Lembrei aleatoriamente da Tia Cleusa, quem diria, a Tia que me vendia o melhor brigadeiro do mundo.  Hoje me olho no espelho e reconheço a Tia Cleusa que há em mim, os olhos fundos, as mãos aflitas, a preocupação com o fechamento das contas do mês que nunca fecham,  o sono após o almoço,  a vista prejudicada pelos livros e agora celulares, a aceitação da tudo como uma benção e uma cruz.
   A Tia Cleusa era a dona da cantina de onde estudei por anos, ela nos atendia com tanto carinho, que me apaguei demais à ela e aos doces que vendia. Quando eu não tinha dinheiro,  ela deixava comprar fiado,  o que me dava mais prazer ainda pelo doce e pela confiança dela em mim. Eu sempre esperava pela hora do intervalo para vê-la abrir o sorriso e dizer: "Bom dia, minha fofura! Você está boa?" e aquilo enchia meu coração de uma alegria instantânea e embora tantas vezes eu estivesse triste, nunca confessei nada à ela. Então eu respondia: "Oi Tia! Estou bem sim, vou querer um brigadeiro dois amores" e ela escolhia o mais bonito para mim. 
   No decorrer do ano letivo, eu ficava degustando meu brigadeiro ou lanche no balcão da cantina com minhas poucas amigas, afinal ter muitas amigas e ser popular requeria alguns pré-requisitos os quais eu não possuía, enquanto ela contava suas histórias, às vezes falava mal do marido encostado, às vezes falava do cansaço que  dava ter três filhas, várias vezes falava pelos cotovelos mal do governo, de como era difícil pagar em dia pelo ponto da cantina todos os meses, de como era difícil fazer dieta em um mundo com tantas coisas gostosas para se comer, entre outras coisas. Eu adorava ouvi-la, saber da sua vida além da cantina. Me arrependo tanto de nunca ter dito o quanto ela me inspirava, o quanto ela transmitia força e luz para mim. Às vezes imaginava como seria ser filha dela, será que ela era carinhosa assim em casa também? Ao final ela sempre repetia para nós: "Cada um tem sua cruz nesse mundo, é assim! Mas Deus não dá uma cruz maior do que você pode suportar" entre outras reflexões. Eu pensava se era mesmo verdade isso, porque eu não gostava da minha cruz, não gostava da cruz da minha mãe nem da cruz das pessoas boas do mundo. Eu nem tinha religião, por que então teria que carregar uma cruz? Enquanto isso ela continuava falando e depois beijava com força seu crucifixo que usava diariamente no colar, acho que era de ouro. 
  Quando eu voltava para casa e encontrava minha mãe triste no sofá,  repetia as frases "motivacionais" que aprendia com a Tia Cleusa. Ela ouvia me dando a melhor atenção que podia e depois, pensativa, respondia: "É verdade, minha filha". Assim a vida ia passando. 
   Um dia a Tia não foi trabalhar, dei de cara com o molenga do marido dela sentado no caixa da cantina ouvindo esporte pelo rádio de pilha. Desisti do doce.
   Passaram mais muitos dias e nada dela, a escola tinha perdido algo de felicidade para mim, até que no final do ano eu a vi chegando e carregando algumas  sacolas e embalagens.  Estava carequinha, inchada e com o passo mais curto. Logo abriu um sorriso quando me viu, eu sorri também e corri para o banheiro chorar. Aquela Cruz ela não merecia, aquela não! 
   O câncer de mama a pegou sorrateiramente e quando descobriu já era metástase,  a coluna doía demais e a respiração era ofegante. Mas era preciso pagar o aluguel do ponto. Era preciso muito mais para carregar a Cruz.
   Ela se foi... e o molenga do marido continuou com o rádio de pilhas rindo e chorando pelo futebol por anos. Cada um tem a sua cruz...
   Penso na minha, nunca a aceitei, uma impostora, sádica e debochada... Penso quando ela trará meus tumores, com certeza estará rindo de mim! Ela sempre vence, eu que chore pelo resto da vida em posição fetal!
   Quero estar pronta. Quero lembrar dos afetos que recebi de estranhos, do jeito que a Tia Cleusa me chamava de fofura, biju, marianinha, menina de ouro, florzinha, formiguinha, meu amor... Não pensarei em dor alguma, só nos afetos gratuitos todos.
   O afeto previne o suicídio, o câncer,  a gripe e a fadiga do coração.  O afeto é quentinho e amarelo como o sol em uma manhã de inverno. 
   O afeto é um brigadeiro num dia ruim da infância. 



















Mariana de Almeida.  

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Poema velho.

Envelhecer nos silencia
São pequenos ímpetos que silenciamos
Já não me vale a pena certas palavras
Emudeço ante o horror, o gélido e o feio
Não falarei também sobre como te esqueci
(Guardo as melhores palavras só para mim)
Poderia falar de como gosto de coisas novas
Um livro novo, um café, um cigarro depois
Mas isso já é tão velho em mim...
Poderia contar sobre meu novo vício
Sabonetes de limão siciliano humm
Aquele cheiro que invade a pele, a casa e tudo que os olhos veem!
Poderia contar sobre como tenho gostado mais de cozinhar
Como tenho colecionado plantas, elas parecem cantar para mim
Também deveria contar como os cabelos estão nascendo brancos e eu os observo com respeito!
Poderia contar como é lindo ver um filho crescer e ser uma pessoa boa no mundo
Poderia contar que quero ter um gato pela primeira vez
Poderia contar tantos segredos lindos!
Mas minha voz falha perante o absurdo
Deixo minha vista cansada saborear o silêncio do que não precisa ser dito
Penso no horror, mas recuso-me a falar
Minha garganta trava em protesto!
Tenho me silenciado, tenho envelhecido, tenho sabonetes novos guardado em gavetas íntimas
Tenho me protegido de quem fui para receber quem agora sou e não há muito o que falar.
É preciso silêncio para se envelhecer em paz.


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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Rendo-me.

Rendo-me
Porque sei que perdi
Rendo-me
Porque sei que pequei
Rendo-me
Porque embora tentei fugir
Sabia que não haveria saída
Teus olhos caminhos de abismo
E se errei ao testar até o fim
Pagarei a pena imposta
Com êxtase e glória!
Minha perdição foi você
Demônio que prometia a paz
Torturou-me a carne com palavras
Marcou em brasa meu coração
Entre minhas pernas fez morada
Profana oração.


Arte: Katiko.
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Bandido.

Aquele bandido
Não bastasse entrar na minha vida
E roubar tudo que havia dentro dela
Alegria, livros, discos, umas roupas
Mas deixou meu cinzeiro de estimação
Os cigarros se foram, o whisky também
Ficou o porta retrato abstrato...
Aquele bandido
Roubou meu pequeno aquário de sonhos
E foi vivê-lo com outra iludida
Aquário velho, peixes novos
Sonhos velhos, tempos novos
Aquele bandido
Antes fosse só isso
Fiquei sem água
Sem cigarro
Sem chão...
Deixou a luz ser cortada
Gastou o dinheiro no bar
Apostou tudo no bicho
E deu azar
Perdemos tudo.

Maldito burro!

(Mariana de Almeida)

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Nude.

Tive que pagar o preço
Todos sabiam do erro
O vazamentto
Da besteira
Das tetas nuas
Tela impressionista
Do quadro
Na sala 
Da tela
Do computador
A dor exposta
Em megapixels
Na cor nude
Que escondia
O vermelho
Sangue
Sangue
Sangue.

(Mariana de Almeida)


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Feliz.

Eu fui tão feliz!
Estou tão grata...
Não porque vi os dias claros
Em tempos escuros,
Não porque senti o calor
Em plena tempestade de neve,
Não porque senti o amor
Em pleno bombardeio de ódio,
Não porque colhi os girassóis
Em uma terra improdutiva,
Mas porque sei que estava viva
Quando todos, loucos,
Já estavam em estado
De putrefação moral!
Eu fui tão feliz!
Eu estava viva
E eu pude ser
Tudo que o amor prometia.

(Mariana de Almeida).

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Sei que sou mulher.

Sei que sou mulher
Toda vez que nego o mundo
E sou queimada por ele,

Sei que sou mulher
Toda vez que nego o sistema
E sou perseguida por ele,

Sei que sou mulher
Toda vez que nego o homem
E sou ameaçada por ele,

Sei que sou mulher
Toda vez que me tiram a paz
Toda vez que me roubam o ar
Toda vez que me deixam no vão,

Sei que sou mulher
Quando me reconheço em outras mulheres
Temos o mesmo semblante e olhos cansados
Temos os mesmos sonhos e cárceres privados,

Sei que sou mulher
Quando distraída vejo meu reflexo no espelho
E cumprimento minha avó, minha mãe e minha filha
Dentro de minha pele, ossos, lágrimas e sangue,

Sei que sou mulher
Que meu útero de outros úteros fecundaram a terra
E carregaram gentes de outras gentes de outras
Do fundo do oceano para o chão que agora piso
E sujo meus pés porque sei que sou mulher.


(Mariana de Almeida)


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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Por que o feminismo ainda assusta tantas mulheres?

   Por que ainda em pleno século XXI a palavra feminismo assusta tantas mulheres, além do homens?
Se o feminismo, diferente do machismo, não ameaça ninguém e traz luz às mulheres do mundo, validando seus direitos e desejos individuais, por que a ideia da mulher ser livre ainda assusta tanto?
   Aquela balela contada ao longo da evolução da humanidade de que as mulheres vieram da costela do homem é tão enraizada no inconsciente coletivo e disseminada por instituições religiosas que muitas ainda submetem-se às ordens e desejos dos homens, obedecendo-os incondicionalmente.
   Quando uma mulher desperta e consegue enxergar sua humanidade, seus desejos, seus sonhos e seu próprio corpo independente da autoridade moral e política dos homens, ela descobre-se um ser crítico social  e daí seu desejo de liberdade imerge e vem à tona.
   É como um despertar instintivo da mulher-loba que trazemos em nosso íntimo, como bem disse a psicanalista e escritora Clarissa Pinkola Estés ao falar sobre a mulher selvagem que habita em nós, a mulher que se recusa a ser domesticada para servir aos homens e ao sistema capital, mesmo correndo sérios riscos de vida. Quantas mulheres ainda hoje morrem por desafiar as leis impostas pelo patriarcado ao negarem a eles a subserviência?
   Hoje o feminismo intimida tantas mulheres exatamente pelo retrocesso social o qual temos vivido, o feminicídio explodiu nas estatísticas e nos noticiários diários das grandes mídias. Os homens estão nos matando mesmo! Nos matam por negarmos sexo, por negarmos um relacionamento que não nos interessa mais, por negarmos suas vontades, por negarmos sua violência e por negarmos seus privilégios que não cabem mais nessa realidade.
   A cada cinco dias, no estado do Rio de Janeiro, uma mulher é assassinada pelo simples fato de ser mulher, segundo o Dossiê Mulher, estudo feito anualmente pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Já em termos de País, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídios, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. 
   Quem poderá nos salvar? A igreja? O Estado? O Mercado? A ONU? Infelizmente parece que nenhum destes. Pelo que tudo indica, as mulheres só podem contar uma com outras. São as mulheres quem podem educar os novos homens para esse tempo em que elas devem ser vistas como seres humanos autônomos, além importância da criação de políticas públicas e para isso devemos eleger vereadoras, deputadas e líderes de governo municipais, estaduais e federal que lutem pelos direitos humanos e civis das mulheres.
   Só assim poderemos tomar medidas reais para frear esse genocídio o qual estamos vivendo, ou melhor, o qual estamos morrendo.

   Moços, parem de nos matar!!!

(Mariana de Almeida)

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