quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Haja.

Haja tantas consequências
Para tão poucas escolhas;
Haja tanto fardo
Para tão pouco bálsamo;
Haja tanta cruz
Para tão pouco corpo;
Haja tanta estrada
Para tão pouco destino;
Haja tanta promessa de vida
Para tão poucas alegrias;
Haja, haja, haja
Tudo que me bastaria
Se não me faltasse.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Esquizo amor.

Amores esquizofrênicos
Em era virtual
Tem foto perfil
Roubada do Google
Sorrisos colados 
Em redes sociais
Sozinhos, às claras,
Encharcam travesseiros
Onde sonhos gritam
A dor da nossa solidão
Realidade é a perda
E mentira é a negação
Nunca se mentiu tanto
Para padronizar e capitalizar
O que antes era poesia.

Flerte verbal..

Nosso papo é um flerte
Nossas palavras se misturam
Disfarçam e se copulam
Gozamos em plena avenida
Ao meio dia
Ao meio tom
A língua atiça
Meu desejo por você
Poesia.

Esquecer

Devemos esquecer
Absolutamente
Tudo o que nunca houve
Entre a gente
E esquecer, principalmente,
Tudo, o que, em vão
Sigilosamente
Desejamos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Papel em branco.

O papel em branco incomoda
Interroga-me
Rabisco ao léu minhas confissões
Meus amores ocultos, inimagináveis
Esqueço os espinhos todos 
E reescrevo minhas palavras
Ilustro minhas histórias de menina
E amasso finais tristes de papel;
O papel em branco incomoda
Encara-me de frente
Cobra-me uma resposta
Da vida e das horas que me foram impostas
Para serem vividas e celebradas
Devemos fingir que a felicidade existe!
O papel em branco me incomoda tanto!
A caneta espera, espreita e quase me irrita!
E finalmente mancha o papel com novas histórias
Eu sigo meus dias de iras e glórias
Revivendo na cidade os rabiscos que traço
Nesse papel em branco a espera por uma nova aurora.

Visão.

Cuidado ao querer acender as luzes
Do porão da sua alma;
Você nunca sabe
Quando estará pronto
Para enxergar 
Aquilo que os olhos
Não foram capazes de ver!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Eu nunca te amei.

Eu não te amo, simples assim.
Eu nunca te amei, eu nunca te desejei.
Eu amei suas letras, seu enredo, sua arte
Mas nunca desejei sua carne nem a sua alma
Que agora os laços todos se desfaçam antes do fim!
Aquela amizade cheia de cumplicidade não era mais que um disfarce, 

Você no fundo, sempre me quis ao teu lado, pouco importavam minhas palavras, 
Minha poesia que você nunca entendeu porque com certeza nunca leu com os olhos de um leitor,
Seus olhos eram de homem faminto, pela minha carne e minha palavra, que te jurasse fidelidade e                                                                                                                                                           exclusividade.
Você, cego, não poderia jamais saber, tudo que a poesia pode ver.

(Mariana de Almeida)


terça-feira, 21 de agosto de 2018

Eu gosto do mal.

Eu gosto do mal
Da energia vital
Da força sexual 
Que tudo mantém
(Como é a energia oculta que vem da força do mar);
Eu gosto do mal
Eu gosto do desejo que há
Na pele, na pétala, na flor
Porque o mal tem poder
E o poder é o que me mantém a você;
Eu gosto do mal
Porque o mal é a verdade do bem
O mal é a nudez exposta a luz do bem
O mal é a dor que excita sob o bem
O mal é a desordem descarada do bem;
Eu gosto do mal
Da energia vital
Da verdade animal
Da força sexual
Dos desejos que escravizam;
Eu gosto do mal porque sou fêmea
Sou animal, sou bicho,
Sou o que nunca basta
E estou viva, apesar de, todavia...
Porque desejar só o bem
É desejar o horror da vida
É a mentira do mal
É a hipocrisia da ordem
É a morte dos sentidos
É o meu prazer reprimido;
Eu gosto do mal
Porque ele mostra
Na carne e na cara
O que o bem disfarça
Mas nunca satisfaz com verdade.
.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, texto e close-up

A mulher que um dia eu fui.

Há muito terminei com a mulher que um dia eu fui; 
Às vezes, distraidamente, a encontro em um espelho qualquer; 
Nos cumprimentamos formalmente 
Ela segue para o passado 
Eu sonho para o futuro. 

(Mariana de Almeida).


A imagem pode conter: Mariana de Almeida, sorrindo, close-up

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Ensurdecedor.

Passei minha vida reclusa
Infância atrás das portas
Dentro de armários
Debaixo de cobertas
Travesseiros para abafar os sons;
Passei minha vida reclusa
Juventude atrás de ídolos mortos
Dentro de livros
Ouvindo discos
Com som alto para abafar os sons;
Passei minha vida reclusa
Mulher atrás de palavras, preces
Dentro das noites
Dentro da boêmia
Em busca da poesia que pudesse abafar os sons;
Passei minha vida reclusa
Com medo das ruas de gente
Com medo das vozes
Com medo do meu grito
Que ao eclodir, revelaria todos os sons.


Fotografia: Ricardo Laf.

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