terça-feira, 20 de março de 2018

Nada.


Quando era pequena
E o mundo parecia tão grande
Tudo era infinito e distante
Quase palpável;
Quando era grande 
E o mundo se tornou tão pequeno
Tudo era finito e frágil
Quase quebrável; 
Agora que sou tão minúscula
Um grão de areia na imensidão
Um átomo de qualquer superfície
Feliz por saber-me inútil e só
E o mundo nada que me satisfaça;
Não me dói mais...
Nem ser levada pelo vento num sopro
Nem ser esquecida sob o peso da pedra;
Também não me dói mais sua ausência
Talvez sua presença até me incomode
Tudo é uma perspectiva do nada
Nada, nada...do nada que significa
Simplesmente não ser nada e não desejar nada
Que altere o nada dos fatos.

O portão.

Sim, Mãe!
Eu morri tantas vezes
Algumas bem ali na tua frente!
Você era dura, mãe?
Você não morria?
Ou da morte nunca renasceu?
Tua risada estampavam os dentes sombrios
Ou caçoavam de nós, pobres mortais,
Que ainda sangravam de medo antes da hora final?
Corram! O portão está trancado
Perdemos as chaves para sempre
E o carro novo em breve chegará!
Nos diga, mãe, o quanto somos felizes?
Diga, mãe!
Antes de derrubarmos o portão!


(Mariana de Almeida).

quinta-feira, 15 de março de 2018

A vida.


A vida não vale nada
A vida não vale a bala
A vida não vale a tarde
A vida não vale a vala;

A vida não erra
Quem erra é o homem
A vida não grita
Quem grita é o homem
Que pede socorro
Em nome de tantos outros;

A vida não vale nada
A vida não escolhe nada
A vida não sente nada
A vida somente segue;

A vida é tão egoísta
Não olha pro lado
Não toma cuidado
Não ouve os disparos
Não salva quem pede
Não vinga quem fere;

A vida não espera
A vida é a porra de um carro enguiçado na avenida lotada
A vida é a espera de um telefonema que nunca virá
A vida é um sonho de paz e justiça estampada na revista;

A vida, tão maldita, é essa longa espera
A vida deixa os bons irem primeiro
A vida gosta mesmo é do inferno
Armas, bombas, mentiras e silêncio
A vida é uma foda mal dada
Que carregamos no ventre como feto
A dor para sempre de nunca nascer.

(Mariana de Almeida).



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A mulher de 40.

O Diário Balzaquiano está chegando ao fim, suas últimas páginas estão sendo escritas. A mulher de 40 bate à porta, anda tão triste e cansada, não espera por nada, não encontra sua loba nem uiva sob a lua cheia. Apenas contempla sob a luz do luar e observa a noite como quem atravessa o dia. A mulher de 40 vem vivendo intensamente um processo de desconstrução total, ela não quer mais muros e tijolos, ela quer se libertar deles e ficar leve, leve, leve...
A mulher de 40 vem aí. Idade da Loba ou da Borboleta? 

Crônicas patológicas: Bipolar!


Bipolar ela disse quase gritando!
- Eu já te disse que você é bipolar! Pô! Vai enfiar os pés pelas mãos mais mil vezes, vai se meter em confusão, vai se perder, ficar confusa, com medo, com o pensamento acelerado, vai se arriscar demais! E depois? Se afundar por meses até voltar para a vida! É assim, vai por mim... É a eterna roda gigante, ela não pára nunca... Além do mais você sorri demais! Tá feliz por quê? Devia estar se conscientizando que a medicação é para o resto da vida. Não tem cura! Não tem saída! E não tem milagre. Como é que vai fazer? Eu já perdi carro, consultório, marido, mas e você? Vai perder o quê? Eu sou médica e você não é! Num tem jeito, tá me entendendo? Cansa demais viver assim, por isso a maioria acaba desistindo e comete suicídio, é verdade. Já perdi paciente por causa disso, eles se sentem melhores, acreditam que melhoraram, que receberam uma graça divina, começam a fazer academia, voltam a sair, se relacionar, trepar, vem as compulsões e de repente, pá! Vem a avalanche do efeito reverso, a montanha russa da morte, a certeza de que mais uma vez tudo deu errado, foi só ilusão e fim. Morrer é o único deleite.

Mas como eu te dizia, a medicação é para sempre, como se fosse seu remédio da hipertensão ou da tireoide ou de qualquer doença que precise de manutenção diária. O remédio vai te proporcionar estabilidade e uma certa paz, você vai conseguir se concentrar melhor, pensar melhor, não ter picos de compulsão ou ansiedade, não vai agir instintivamente pelo prazer do momento, enfim, estabilizadores de humor são para isso. Depois de uns dez dias você estará sentindo a melhora. Do resto, corra atrás da sua vida, sabe? Pode fazer atividade física, trabalhar, namorar, sair com amigos, ler, estudar....Valorizar as coisas simples que lhe dão prazer, esse é o segredo. Caso contrário, a morte te encontrará no fundo da casa do teus pais e pode ser que demorem para perceber o mal cheiro do teu presságio.

- Próximo! Pode entrar!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Peregrinação.

Entre tudo que foi
E tudo que há
Aposto, ainda, no que virá;

Pois sem esse louco sonhar
Não há pés que se arrisquem
Nesse difícil peregrinar.

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Segredos.

Só escreve poesias
Quem dentro da escuridão
Consegue enxergar 
As muitas cores 
Que juntas a compõem;

A exata visão da vida
Essa dama que mistura dores
Para confundir as cores 
Segredos que revelam 
A nossa mais oculta escuridão.



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Revolução.

Há o tempo da semeadura
E há o tempo da colheita;

Há o tempo da luta
E há o tempo da conquista;

Há o tempo da palavra
E há o tempo do silêncio;

Há o tempo do que fomos
E há o tempo do nunca mais;

O que não sabemos
É o que, de fato, temos
Entre o haver e o será
Somos a espera da semente vingar.



A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e atividades ao ar livre

Eu.

Eu, depois dos muros
Eu, depois das pontes
Eu, depois das ruas
Eu, naquela curva
Eu, na noite escura
Eu, na encruzilhada
Eu, na esquina errada
Eu, na hora inexata
Eu, viva depois do fim
Eu, depois de tudo
Eu, além das roupas
Eu, além da pele
Eu, além das palavras
Eu, além do cimento
Eu, além do vento
Eu, além do nada
Eu, tão somente eu
Viva, enfim.


Passo em falso.

Ah que coisa é o destino!
Que coisa louca é a estrada da vida
Cheia de curvas, labirintos e abismos
Eu, andarilha de desertos, poeta de miragens
Me perdi ao me encontrar;

Que coisa é o instante que nos trai
O segundo que nos precipitamos
E o minuto que tardamos em agir
Frações mínimas de tempo
E já éramos passado de nós mesmo;

Ah que coisa mais cínica é a vida
Como a bailarina que em êxtase
Salta e se rende no auge dos seus dias
A um passo em falso e finda.

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