quinta-feira, 25 de julho de 2019

Sobre escrever.

Me perguntaram o que é escrever e eu sinceramente não sei... Assim como não sei o que é a arte, o que é o amor, o que é a beleza, sei que existem e que me sustentam viva, mas não há definição concreta.
Tem dias que escrever é a minha salvação, assim como em outros dias é a minha maldição. Vomito minha beleza e meu veneno e não há premeditação, simplesmente acontece.
Creio que escrever me salva da loucura, portanto, vez ou outra compartilharei algo aqui com vocês.
Minha gratidão a todos.

(Mariana de Almeida)

terça-feira, 25 de junho de 2019

Classe média.

Cá estou
Entre a perifa e a elite
Muda...
Sem voz alguma
Para me redimir
Da minha classe
Do meu esgoto
Da minha dor;
Classe média é o limbo,
Classe média é o câncer.
Classe média é a esquina
Do crime
Da noite
Do adeus que nunca daremos;
E a luta de classe foi o sonho
Que não despertou.


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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Basta!

Política? Basta! Me retirei...
Lutei demais
Falei demais
Defendi demais
Nada cessou a onda gigante do mar;
Mar se revolta
Mar invade
Mar fica de ressaca
Mar tem maré cheia
Mar recua
Mar tem maré baixa
E no fundo a transformação
Movimento contínuo
Semente de revolução
Tsunami em pleno verão
Arrebentando tudo
Invadindo terras
Praias e civilizações;
Coração marítimo
É o coração do poeta
Que naufraga antes do cais.

Folhetins.

Morram todos com suas respostas perfeitas de como é simples dizer sim;
De como é fácil renunciar à dor, aos dias, ao caos da cidade fascista;
Como é fácil debochar de tudo para os outros; 
Como é fácil contar uma versão de tantos fatos;
Como é fácil julgar o que não se escolhe;
As coisas não ditas são as mais perturbadoras;
Remoem na cabeça antes do sono;
Transformam tudo em espetáculo, em circo;
Você ingênuo, acredita em bondade e solidariedade, enquanto gargalham...
Alguns elos deveriam ser sagrados
E não compartilhado...
Talvez essa seja a resposta de tudo...
Cumplicidade e intimidade expostas em folhetins virtuais
Da nossa ilusão real.

Foda-se!

Foda-se o preço do dólar,
Eu estou doente e não me importa
Foda-se a queda dos imóveis,
Eu estou doente e não me importa
Foda-se que perdi o Masterchef,
Eu estou doente e não me importa
Foda-se você e seu carro novo
Foda-se todos os seus problemas
Foda-se tua solidão impenetrável
Sua angústia inexplicável de tudo
Seu ponto de vista inconcebível,
Foda-se sua teoria da conspiração
Dos Deuses e da ausência de todos eles,
Foda-se sua necessidade de ser correto
Num mundo determinado por algorítimos incertos...
Foda-se tudo isso que nunca me interessou
Eu estou doente e não me importa mais
Fingir que algo me importa para poder pertencer
Eu nunca coube em nenhum espaço mesmo
Agora eu estou doente e a imensidão me corteja
Disfarço até onde posso, nunca sei se já estou pronta
Mesmo nas relações mais tóxicas, dizer adeus me doeu,
Sempre me apeguei a qualquer pedaçinho de atenção
Agora estou doente, talvez consiga vencer o câncer
Já o tédio ou o fascismo das ruas eu não sei
Viver me doeu desde muito cedo.


(Mariana de Almeida).




sexta-feira, 17 de maio de 2019

Mulher.

Não se nasce mulher, eu sei
Tornamo-nos mulheres
À medida que crescemos
E aprendemos a andar pelo mundo
E já desde bem pequena aprendemos
A ocultar nossa beleza, a fechar nossa perna
A medir nossas palavras, a baixar nossa voz
A olhar para trás, a não responder ou zombar
A pensar primeiro nos outros, a recuar
A não encarar nos olhos de alguns homens,
A mudar de calçada, a baixar mais a saia,
A desviar da esquina, a relevar assobios
A não repetir o prato, a lavar toda a louça
A estudar mais, a tolerar mais, a perdoar mais
Sobremesa, nem pensar! Não podemos engordar
Discutir, nem pensar! Não podemos incomodar
Viajar sozinha, não! Não podemos nos arriscar
Trocar o pneu do carro, não! Não temos aptidão
Amar outra mulher, não! Não podemos ser sapatão
Amar várias pessoas, não! Não podemos ser vadias
Ganhar mais que o marido, não! Não podemos aceitar isso
Ser solteira para o resto da vida, não! Não podemos ficar sozinhas
Detestar crianças, não, o que é isso? Todas devemos ter filhos
Falar de política no trabalho, não! Não podemos correr riscos
Ser mulher é usar toda a inteligência emocional para driblar a sorte
Tudo o que nos move instintivamente é o nosso desejo ancestral
De permanecermos vivas; completamente vivas e lúcidas
Nós já apanhamos muito, já nos negaram todo o tipo de sorte
Já fomos queimadas vivas em fogueiras, já fomos abandonadas
Já fomos estupradas, assassinadas, violadas e roubadas
Não se nasce mulher, eu sei
Não se nasce mulher, eu sei...

Ser mulher e não se comportar como mulherzinha, não!
Como ousa negar toda tua doutrinação de mulher?
Como deseja ser respeitada por toda sociedade, então?
Como renega o teu mais sublime privilégio de ser mulher?
Mulher, tu és o esteio dos lares, da famílias e do patriarcado
Tu és nossa joia mais preciosa, nossa papoula do deserto
Nosso lírio da paz, nossa carne mais quente para nos abrigar
O que mais poderia desejar, Mulher?
Mulher, redime-se enquanto há tempo
Não manche teu nome com ingratidão!
Recolha-se e peça perdão por tua tentação
De rejeitar ser uma maldita Mulher!


(Mariana de Almeida).












terça-feira, 14 de maio de 2019

Mãe:

Não me esqueço,
Daquelas palavras, não me esqueço
A palavra certa na hora incerta
Pode previnir desatres, apagar faíscas
Dar abrigo ante ao abandono noturno;
Não me esqueço,
Daquele aceno, aquele sorriso
Ao meio dia no meio da rua
Entre os carros na avenida que incitam
Um passo à frente e a vida ficaria para sempre;
Não me esqueço;
De todos os vazios escuros, céu opaco
Nós sozinhas, era noite, era dia
Um uivo irrompia nossa casa, nossa vida
E nós sozinhas diante do abandono, do medo
Não eu não me esqueço;
De quanto preciso esquecer todo aquele tempo
Toda aquela mágoa corrosiva que enferruja a vida
Toda aquela mancha em nossa história bordada no pano de prato
Todo aquele grito contido, abafado....assassinado.
Mãe, eu não queria ter dividido contigo
Aqueles piores dias
Onde a nossas únicas promessas
Eram tragédias.
Mãe, contigo eu só queria a palavra sol.


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segunda-feira, 13 de maio de 2019

A poesia.

Entre a realidade e a loucura
Invento com letras miúdas
Palavras que gritam
Meu silêncio absurdo;

Não, não é covardia
Nem é desprezo pelo abismo
Que insisto em pousar meu olhar
Deve ser, no fundo, só vaidade;

Antes do voo, o desejo de asas
Antes do grito, a palavra escrita
Antes do abismo, uma saída
Antes da pele, a poesia que habito.

O amor.

O amor
Foi tudo que ficou
Daquela promessa quente que fizemos;
O amor
Foi tudo o que ficou
Daquele café que dividimos pela manhã, depois do último gozo;
O amor
Foi um pensamento vago o qual dissipei junto à fumaça do cigarro
Silêncio que disse tudo, palavras estragariam o nosso último amor;
O amor é a saudade que trago no peito
Do amor que não tivemos
Do amor que não prenhamos
Embora, loucos, semeamos
A terra molhada, fértil e fonte de mel
Pari memórias do amor.



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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Flores.

Queria ser bonita
Sentir-me bonita
Ter a alma colorida
De flores e brisa
Um vento de dentro
Em noite de verão
Queria a pele acetinada
Como pétalas de rosas
Para ser desejada por você
Eu queria ser bonita
Eu queria sentir-me bonita
Só para ser desejada por você
Queria impregnar-te
Com meu perfume
Minhas pétalas
Meu pólen
Meus espinhos
Cravar-te na pele
Meus desejos todos
Plantar raízes
Nascer um jardim
Onde antes era só deserto
Semi-árido.

(Mariana de Almeida)





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