terça-feira, 7 de março de 2017

Mataram. ( #Poesiapraguerra )


Mataram Maria no ponto de ônibus

Mataram Clarice indo para a missa

Mataram Cristina na porta da escola

Mataram Lourdes saindo do trabalho

Mataram Clara naquele beco escuro

Mataram Sonia na esquina de casa

Mataram Ana depois de a estuprarem

Mataram Cinthia por pura vingança

Mataram uma mãe

Mataram uma filha

Mataram uma amiga

Mataram uma mulher

Mataram uma família

Os motivos?

São sempre os mesmos...

João, Pedro, Antônio, Carlos, Moacyr e outros

Não aceitaram o fim dos seus relacionamentos

Abusivos e repletos de violência

O qual eles chamavam de amor

João ainda justificou que foi preciso lavar sua honra,

Pedro disse que ela mereceu,

Antônio chamou a mãe dos seus seis filhos de puta,

Carlos disse que são todas vagabundas,

E Moacyr jura que mulher direita só existiu uma

Hoje respondem por processos

Apenas processos para explicarem

E finalmente provarem porque

Tiveram razão de matar tantas mulheres

Do nosso pobre país amaldiçoado

Pela pobreza, ignorância e violência

Onde exterminam mulheres e meninas

Vítimas dessa epidemia maldita

Conhecida como machismo,

Misoginia e Feminicídio.


 (Mariana de Almeida)

Imagem: Protesto em Florianópolis-SC contra o assassinato de mulheres.


domingo, 5 de março de 2017

Gira Sol.

Os girassóis, assim como nós, também morrem.
Os girassóis vivem juntos nos campos
Seguem a direção do sol
Entristecem na escuridão
E secam de solidão e frio
Nas noites sem você.
Amarelo luz do sol
Amarelo girassol
Que floresce os campos
Mais áridos da alma
Amarelo
Amar é elo.
 
(Mariana de Almeida)
(Quatro girassóis cortados, 1887. Van Gogh.)


Cenas do cotidiano.


Nos adicionamos
Através de amigos em comum
Trocávamos mensagens in box
Cinco minutos de papo
E foram o suficiente
Para irmos direto ao ponto
Química virtual total
Quase nos comemos ali mesmo
Pela tela do computador
Entre palavras mal digitadas
E desejos confessados
Delirávamos e às vezes trocávamos canções
Nosso bom dia era assim
Eu mandava um Led para ele
E ele respondia com Billie Holliday.
Então marcamos um chopp
Sexta-feira a noite
Foram três chopes, algumas risadas
E sexo de primeira por toda a madrugada
Falamos poucos e fizemos muito
O dia amanheceu e nos separamos
Sem dor, a noite foi boa, simples assim.
Agora, depois de mais de um ano
Nos reencontramos na fila do supermercado
Ele sorriu e nos abraçamos forte
Perguntou como vai a minha vida
Eu respondi daquele jeito de sempre
"Um dia de cada vez..."
Ele me contou que está com câncer
Tratando e resistindo
Perguntei se podia ajudar em alguma coisa
Ele disse que sim
Que precisava as vezes ter alguém para conversar
Trocamos de novo telefones
E agora conversamos sobre tudo
Inclusive sobre aquela noite louca
Em que nos entregamos
Sem esperar nada em troca
Sem jamais imaginar o que seria
do amanhã
E rimos, rimos de tudo
As vezes queremos chorar, é fato
A vida está fudida para todo mundo
Ele disse que agora
Tem um motivo a mais para se curar
E que tudo vale a pena
Nascer, morrer e renascer
Quantas vezes preciso for.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A paixão.

Nada maltrata mais o coração da gente
Que a paixão!
Essa serpente que queima por dentro
Invade o pensamento, alucina
Rumo ao labirinto, a um passo do abismo
Atiça os sabores proibidos, insinua e deseja
Implora e mendiga como cão de rua por comida
Transtorna nossa mente rumo ao paraíso perdido
A paixão!
Rasga a roupa e desobedece aos sentidos
Alucina e agoniza como escravo dessa lascívia
Nada dói mais que o amor a a arte
Submetidos aos desejos da paixão
Essa louca serpente que desgoverna a razão
E altera todo o itinerário do coração.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Natália.


   A história começou exatamente assim: Natália navegava na internet sábado à noite enquanto curtia Olívia Ong e degustava seu vinho tinto sabático.
   As noites de sábado de tempos atrás costumavam ser mais animadas, geralmente fora de casa e rodeada de amigos, mas ultimamente ela sentia-se bem assim, em casa, bebendo, ouvindo música e lendo algum livro, quando vez ou outra se perguntava se algum dia amaria novamente. Não queria se preocupar com isso, afirmava com todas as letras que era possível sim ser feliz sozinha, se aparecesse alguém seria para dividir e somar, pois Nati já era mãe e não queria mais contribuir com a dor das futuras gerações. Na verdade, Nati era bem pessimista quanto ao futuro da humanidade, sabia que o ser humano era um animal autodestrutivo, egoísta, perverso, ganancioso e cruel. Suas experiências com o outro resultaram nessas impressões difíceis de serem moldadas, mas por vezes depois de um pouco de vinho e boa música, a ideia de amar novamente rondava sua cabeça. Nati se espreguiçava no sofá, colocava o livro aberto sobre os seios e afundava sua cabeça nas almofadas enquanto flertava com a possibilidade de se apaixonar.
   Sentiu seu celular vibrar, era uma solicitação de amizade: Nathan deseja ser seu amigo: 05 amigos em comum. Nati simplesmente aceitou, um a mais ou um a menos não faria diferença na sua vida social virtual agitadíssima.
   Ele era fotógrafo, aparentava uns 45 anos, cabelos brancos, olhos pretos, um pouco de barba grisalha e dentes irregulares. O conjunto a agradava, aquele rosto exalava alguma paz e harmonia, ficou olhando sua foto por alguns segundos quando veio o primeiro bate papo, ficaram horas conversando, o papo fluiu e a atração idem, acabou a garrafa de vinho, trocaram histórias e músicas, discutiram poesia e fotografia, riram e se despediram com alegria. Pena não morarem na mesma cidade, caso contrário, se encontrariam naquele momento mesmo. Paixão boa é aquela que bate na hora e não espera a hora certa para sentir. Uma pena, cada um de uma cidade e a vida real para dificultar qualquer contato e brochar tantas expectativas..
   A vida real é esse pacote de frustrações que carregamos, esse monte de boletos vencidos sem previsão para serem pagos, filho doente, cachorro no sofá, carro enguiçado, família, ex-marido, trabalho entre tantas outras coisas.
   Uma sensação angustiante no peito, sabia que devia se dar o direito de simplesmente viver sem a menor obrigação de fazer dar certo ou errado, simplesmente viver cada momento sem tanta culpa.
   Nati foi criada por uma família patriarcal e machista, todos acontecimentos e decisões dependiam do aval crítico e extremamente machista do pai, ele fora castrador a vida toda, exercia sua supremacia contra as mulheres da família que dele dependiam economicamente. Então, muitas vezes era preciso mentir, esconder, ocultar ou modificar a realidade para ser aprovada pelo pai, homem que exercia fascínio e asco ao mesmo tempo, eis um dos primeiros problemas de Nati…daí em diante as coisas só pioraram.
   Ironicamente Nati se casou com um homem também machista e sexista que a torturava psicologicamente atraindo-lhe a ideia de suicídio. Mas em tempo, Nati buscou ajuda psiquiátrica e entendeu que não estava louca e sim estava sendo vítima de muitos abusos há muito tempo. Isso mesmo, não era ela a doente que não se encaixava na família nem no casamento, era a sociedade que não a representava, felizmente! Ao entender isso, Nati pediu o divórcio imediatamente, mesmo sendo alvo de muitas críticas e punições do tipo: “Quem mandou escolher marido errado?”. As mulheres simplesmente aceitam esse tipo de punição porque ainda estamos em plena Era da Inquisição. A luta feminista está apenas engatinhando, é preciso mais mulheres conscientes e engajadas para levar informação e apoio à outras minas, outras manas, outras mulheres e senhoras.
   A libertação da consciência, do livre arbítrio, da livre escolha e do ir e vir se faziam urgentes. Mas e a prisão econômica? Essa era ainda uma barreira difícil de ser derrubada, pois, as mulheres trabalham muito, no trabalho e em casa cuidando de sua família, mas continuam ganhando menos que os homens.
   Nati ganhava pouco, mal dava para pagar as contas do apartamento, já tinha aberto mão de carro e gastos supérfluos, o que ela não abria a mão era do apartamento e dos estudos da filha. Infelizmente o ex marido nunca aceitou a separação e como vingança e punição não pagava a pensão alimentícia em dia, não parava em nenhum emprego, não assumia nenhuma responsabilidade e ainda atrapalhava a vida da sua ex esposa. Foram muitas idas e vindas aos advogados, sessões com o juiz da vara familiar e civil, muitos acordos não cumpridos, muita dor de cabeça e pouco resultado. Dizem que essa lei funciona no Brasil, mas Nati é a prova viva que não funciona nada! O homem paga a pensão alimentícia ao filho quanto e quando quer, as leis protegem os homens e a mulher que dê o seu jeitinho para não faltar o pão na mesa. Nati recorria aos pais, apesar da humilhação, mas por um filho uma mãe faz o que é preciso, engole muitos sapos, mas nunca os digere, nunca!
   Uma semana depois Nati e Nathan se falavam diariamente pelo celular, falavam sobre amor, sonhos, viagens e desejos. Nati não queria entrar em detalhes sobre sua pobre vida sem emoções. As vezes pensava em bloqueá-lo e esquecer de tudo e seguir com sua rotina de sempre, esperando pelas noites de sábado para se dar um vinho de presente enquanto relaxava e curtia as músicas que a faziam sonhar com outra vida.
   Nathan já estava fazendo planos, queria que ela fosse encontra-lo para irem juntos a um show, depois bar e depois passar o final de semana com ele. Domingo a noite ela voltaria para casa.
   Resta saber se Nati vai encarar a aventura amorosa, com quem vai deixar a filha, quem cuidará do cachorro e da casa sem precisar dar satisfação para ninguém.
   Eis o seu grande dilema. Arriscar ou não?

















(Mariana de Almeida).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Brasil.


A vida no Brasil é malabarismo
Eu tento me equilibrar entre tantas cordas
Tropeço entre os dias e noites
Sem dar bandeira, me finjo de sonsa
Pago para ver até quando o circo
Enganará seu povo.
E quando pegar fogo,
Não me chamem de louca
Eu estarei presa entre as cordas
Rindo da chegada hora
Que vai fazer nascer a nova história
A vida no Brasil será outra
O picadeiro será do povo
E o rei deposto estará morto
O circo será de novo só alegria
Na lembrança viva do nosso povo.

(Mariana de Almeida).

domingo, 15 de janeiro de 2017

Lembrança de você.

Putz, Bauman estava coberto de razão
As pessoas se conectam e se desfazem 
Num instante de um clique
Você me arrancou da sua vida
Como um velho papel de pão
Amassou e jogou fora sem remorso
Acreditou em tantas mentiras contadas
Preferiu seu mundo à nova estrada
Não julgo, minhas malas também são pesadas
Nossa, eu te amei tanto
Eu só queria que você soubesse.
Águas passadas, novas enrascadas
A vida não para enquanto bate
Sinto pelas mentiras que se tornaram verdades
Sinto pelo silêncio da nossa sorte
Hoje sei que te amei e isso basta
Louca e apaixonada, fiz tudo errado
Mas agora viramos passado, talvez piada
O futuro continua incerto
Eu nunca sei o que virá de melhor
Sabemos que a cada ano novo
É um ano a menos...
Espero que esteja feliz
E que se lembre de mim
Ao ouvir aquela canção
Que inundava nosso coração.

(Mariana de Almeida).



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amor que mata não é amor!


Me apaixonei por esse homem
Que parecia tão bom e apaixonado
Era muito protetor e sempre me orientava
Como o seguir para não decepcioná-lo;
Um dia ele se abriu e mostrou as garras
Mostrou logo quem mandava no pedaço
Ele detestava minha autonomia e liberdade
Nem entendia meu riso fácil, sem maldade
Tudo para ele não passava de sacanagem;
Minha alma vivia cortada como carne talhada
Sempre se intrometia nas roupas que eu escolhia
Queria saber o que eu lia, o que eu assistia
Por onde eu andava, o que eu tanto pensava
Com quem eu falava e pra quem eu me mostrava;
Um dia jogou fora todas minhas maquiagens
Não restou base, sombra e nem pó
Para disfarçar no meu rosto a sua marca;
Um dia quebrou a casa inteira
Só porque cheguei atrasada
Por culpa do trânsito da cidade;
Quando era dia de eleição então
Era ele quem determinava
Em quem eu deveria votar
Pois sozinha eu jamais poderia pensar;
Mulher não entende de política
Mulher só sabe brincar de casinha
Ele sempre debochava e eu deixava;
Eu amava aquele homem
Que também prometia me amar
Desde que eu não infringisse
Nenhuma lei por ele imposta.


No começo pensei que ele fosse um príncipe
Mas o seu nome verdadeiro era Machismo
E seu sobrenome que eu hesitei em aceitar
Era Feminicidio.


(Mariana de Almeida)





Casos de família.


A Bisa chegou de navio da Itália
Ainda menina veio com a família para o Brasil
Fugindo da guerra e bebendo muito vinho
Porque o leite acabou no meio do trajeto.
Cresceu e mocinha já foi pedida em casamento
Outro italiano mais velho vindo da Sicília lhe escolheu
Antes da bisa decidir, seus pais já tinham consentido a união
A Bisa tinha quase 16 e o italiano garanhão 26
Naquele tempo se casava as filhas cedo assim
Pedofilia era coisa que nunca se ouvira falar
Casar por amor então, conversa de folhetim.
Na hora de casar a Bisa não quis, se desesperou
Olhou com asco para o Siciliano que lhe queria logo na cama
A família a obrigou, entrou chorando na igreja e o padre abençoou
Casamento feito, nunca mais desfeito
Ela contava que na hora da cama era sempre um terror
As vezes ele queria enfiar a língua na boca dela
Ela o empurrava e quase vomitava, contava anos depois
Para nós netas e bisnetas reunidas na sala em volta dela.
Enchia a boca para contar que casou obrigada
Que nunca viveu um grande amor
E que meu bisavô nunca foi como os homens dos romances
Que ela lia compulsivamente para passar o tempo
Como bons italianos, tiveram vida longa
Ele morreu aos 94 anos chamando por ela
Ela tinha 84 anos quando uns dias depois partiu sem dizer nada
Disseram que apesar dos pesares, ela sentiu saudades.


(Mariana de Almeida)


O navio Sicília trouxe milhares de imigrantes italianos para o Brasil, a partir de 1906, quando entrou definitivamente na linha entre Gênova e os portos sul-americanos.



Deixa ir.


Deixa ir
A ilusão que pousou
Mas nunca ficou
Deixa ir
A dor que não venceu
Mas muito ensinou.
Deixa ir
O que se sonhou
Mas não deu flor
No jardim que o fascismo pisou.

(Mariana de Almeida).

Postagem em destaque

Sobre escrever.

Escrever é preciso, ser lido já é outra coisa Escrever é necessidade, impulso, grito Ser lido é invasão, dedo na cara, condenação Jul...