domingo, 15 de janeiro de 2017

Lembrança de você.

Putz, Bauman estava coberto de razão
As pessoas se conectam e se desfazem 
Num instante de um clique
Você me arrancou da sua vida
Como um velho papel de pão
Amassou e jogou fora sem remorso
Acreditou em tantas mentiras contadas
Preferiu seu mundo à nova estrada
Não julgo, minhas malas também são pesadas
Nossa, eu te amei tanto
Eu só queria que você soubesse.
Águas passadas, novas enrascadas
A vida não para enquanto bate
Sinto pelas mentiras que se tornaram verdades
Sinto pelo silêncio da nossa sorte
Hoje sei que te amei e isso basta
Louca e apaixonada, fiz tudo errado
Mas agora viramos passado, talvez piada
O futuro continua incerto
Eu nunca sei o que virá de melhor
Sabemos que a cada ano novo
É um ano a menos...
Espero que esteja feliz
E que se lembre de mim
Ao ouvir aquela canção
Que inundava nosso coração.

(Mariana de Almeida).



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amor que mata não é amor!


Me apaixonei por esse homem
Que parecia tão bom e apaixonado
Era muito protetor e sempre me orientava
Como o seguir para não decepcioná-lo;
Um dia ele se abriu e mostrou as garras
Mostrou logo quem mandava no pedaço
Ele detestava minha autonomia e liberdade
Nem entendia meu riso fácil, sem maldade
Tudo para ele não passava de sacanagem;
Minha alma vivia cortada como carne talhada
Sempre se intrometia nas roupas que eu escolhia
Queria saber o que eu lia, o que eu assistia
Por onde eu andava, o que eu tanto pensava
Com quem eu falava e pra quem eu me mostrava;
Um dia jogou fora todas minhas maquiagens
Não restou base, sombra e nem pó
Para disfarçar no meu rosto a sua marca;
Um dia quebrou a casa inteira
Só porque cheguei atrasada
Por culpa do trânsito da cidade;
Quando era dia de eleição então
Era ele quem determinava
Em quem eu deveria votar
Pois sozinha eu jamais poderia pensar;
Mulher não entende de política
Mulher só sabe brincar de casinha
Ele sempre debochava e eu deixava;
Eu amava aquele homem
Que também prometia me amar
Desde que eu não infringisse
Nenhuma lei por ele imposta.


No começo pensei que ele fosse um príncipe
Mas o seu nome verdadeiro era Machismo
E seu sobrenome que eu hesitei em aceitar
Era Feminicidio.


(Mariana de Almeida)





Casos de família.


A Bisa chegou de navio da Itália
Ainda menina veio com a família para o Brasil
Fugindo da guerra e bebendo muito vinho
Porque o leite acabou no meio do trajeto.
Cresceu e mocinha já foi pedida em casamento
Outro italiano mais velho vindo da Sicília lhe escolheu
Antes da bisa decidir, seus pais já tinham consentido a união
A Bisa tinha quase 16 e o italiano garanhão 26
Naquele tempo se casava as filhas cedo assim
Pedofilia era coisa que nunca se ouvira falar
Casar por amor então, conversa de folhetim.
Na hora de casar a Bisa não quis, se desesperou
Olhou com asco para o Siciliano que lhe queria logo na cama
A família a obrigou, entrou chorando na igreja e o padre abençoou
Casamento feito, nunca mais desfeito
Ela contava que na hora da cama era sempre um terror
As vezes ele queria enfiar a língua na boca dela
Ela o empurrava e quase vomitava, contava anos depois
Para nós netas e bisnetas reunidas na sala em volta dela.
Enchia a boca para contar que casou obrigada
Que nunca viveu um grande amor
E que meu bisavô nunca foi como os homens dos romances
Que ela lia compulsivamente para passar o tempo
Como bons italianos, tiveram vida longa
Ele morreu aos 94 anos chamando por ela
Ela tinha 84 anos quando uns dias depois partiu sem dizer nada
Disseram que apesar dos pesares, ela sentiu saudades.


(Mariana de Almeida)


O navio Sicília trouxe milhares de imigrantes italianos para o Brasil, a partir de 1906, quando entrou definitivamente na linha entre Gênova e os portos sul-americanos.



Deixa ir.


Deixa ir
A ilusão que pousou
Mas nunca ficou
Deixa ir
A dor que não venceu
Mas muito ensinou.
Deixa ir
O que se sonhou
Mas não deu flor
No jardim que o fascismo pisou.

(Mariana de Almeida).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Da poesia.

Essa dor nunca passa
Nem nunca vai passar
Quem nasceu para sentir
Não consegue fingir
Tamanha felicidade
Em face a falsidade
Me disseram que a poesia é arte
Coisa fina, coisa nobre
E o poeta um sonhador
Mas o que eu sei
É que a poesia é ofício
Do poeta que traduz
Em versos líricos
Toda a sua dor.


(Mariana de Almeida).

Nosso amor.

Nosso amor era doença
Curava os dias
Enlouquecia as noites
Entorpecia nosso sangue
Bombeava nossas veias
De versos, lirismo e vinho
Anoitecíamos Santos
Amanhecíamos Loucos
Cobertos de poemas
Que marcavam na pele
Como tatuagens
E palavras rabiscadas
Que nunca decifravam
Nossa vaidade letal
Que mancharia de sangue
Toda poesia que fizemos um dia.


(Mariana de Almeida).

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Meus poemas.

Você não lê mais os meus poemas
Diz que sim, mas eu sei que não
Passa os olhos como se fosse
Notícias falsas de um jornal
Passa os olhos mortos
Como quem passa a manteiga no pão
Todas as manhãs são assim
Todas as manhãs são iguais.
Minha poesia declara guerra
Em meio aos montes de papéis
Acumulados sobre a mesa
É inútil tentar chamar sua atenção
Você ignora, embora finja que não
E nossa vida passa dispersa
Por entre os dedos das mãos.
Entre jornais, boletos e segredos
Grita minha poesia nua
Contra tua frieza muda
Inútil tentar chamar sua atenção
Você não lê mais os meus poemas.

E de fato, acho que nunca os leu
Tudo que um dia nos uniu
Foram as rimas das falsas alegrias.

(Mariana de Almeida).

Feliz ano novo.

   É assim quando nada mais nos satisfaz nem sossega. Vira e mexe e a vida traz aquela velha sensação de tédio e estupidez, talvez seja essa época do ano em que revemos tudo que foi prometido e não foi cumprido, todas as renovações de ano novo sem nos renovarmos de fato, são aquelas mesmas perguntas sem respostas de sempre: Por que nascemos, por que passamos por tantas coisas ruins, se Deus existe e se existe por que ele permite tamanhas atrocidades, se não existe por que tanta gente ainda insiste que existe? Essas perguntas sem respostas que vagam entre nossos pensamentos e nos causam insônia, medo e solidão, pois pior que saber a verdade é nunca sabe-la. 
   Tudo tão vago e inexato que simplesmente devemos aceitar. Devemos aceitar a mulher sem dentes debaixo do sol escaldante pedindo dinheiro no semáforo, devemos aceitar o preço da carne nos supermercados, devemos aceitar o abandono, devemos aceitar o poder, devemos aceitar a demora nos consultórios médicos, devemos aceitar os programas ruins de televisão, devemos aceitar as portas giratórias dos bancos da cidade que sabem tudo que carregamos na bolsa e nos bolsos e principalmente sabem que não carregamos dinheiro, devemos aceitar responder perguntas em formulários e fichas de inscrição, devemos responder nossa renda baixa e nosso estado civil falido, devemos responder que somos mães solteiras, devemos aceitar e assinar os termos de responsabilidade por tudo de mal que nos acontecerá, devemos deixar nosso número de telefone para todos cobradores nos encontrar, para o colégio de nossos filhos nos ligar e para a notícia boa que nunca chegará.
    Esses dias de profundo nada são assim, resta a obrigação de continuar vivo: Ir para o trabalho, limpar o quarto, trocar a água dos cachorros, tomar banho rápido, não fazer barulho, não perturbar o dia nem interromper a noite. O coração, salta, acelera, ameaça um grande devaneio mas apenas se contém, um dia será contido finalmente. Repousará profundo indiferente ao preço da gasolina, à alta do dólar, ao homem louco que se suicidou, a conta atrasada que venceu e não pagou, aos meninos do semáforo que denunciam o Brasil, a nossa falsa democracia, os herdeiros de nossas células que carregarão a dor e o tédio de todos os séculos até o dia em  que tudo será pó e vastidão.
   Nós, os humanos e nossas estúpidas aflições seremos nada, nada além de poeira perdida na infinita vastidão do espaço.

   Que assim seja, feliz ano novo de novo a todos.

(Mariana de Almeida).



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Minha.

Me desculpe,
Se não estou afim
Se não estou à toa
Se não estou na tua
Se não te espero nua.

Se sigo sozinha
Entre a noite e o dia
Rasgando versos
Entornando o vinho
A espera do grande dia.

Eu espero pela primavera
Ver meus campos floridos
Repletos de lírios e poesias
Assim na terra como nos livros
Eu não desisto.

Aprendi a resistir à algumas batalhas
Sobrevivi aos piores holocaustos
Para finalmente ser minha
Do jeito que eu queria
Minha, só minha.

Poema de:(Mariana de Almeida).


Maria menina.



 Maria era uma dessas meninas que estão na vida

Sem saber de onde vinha, sem saber para onde iria

Dessas meninas sem eira nem beira,

Que da vida só levam rasteiras

Maria menina cresce e vira Maria Mulher

Dos sonhos de menina de Maria, nenhum restaria

Maria queria ser artista de circo, mas acabou sendo artista da vida

Sustentava um marido e três filhos com um salário mínimo

Maria acordava cedo para poder fazer a mesa

As vezes tinha pão, às vezes não tinha não

As vezes coava café, às vezes só lhe restava fé

Maria sofria por deixar os meninos à vela

Mas quem cresce na favela sempre encontra uma reza

E a vida leva Maria do subúrbio à cidade

Em seus ônibus lotados de gente atrasada

Vai Maria e volta Maria que nunca desiste

De ser na vida, só o seu sonho de menina.

(Mariana de Almeida).








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