quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Futuro do Pretérito.

Te amaria
Te viraria do avesso das coisas
Te amaria dos pés à cabeça
Te reviraria das pedras ao pó
Te torturaria os desejos todos
Te enlouqueceria a razão
Te desgovernaria o coração
Te faria louco, santo, réu confesso
Te condenaria prisioneiro
Te roubaria a vida, a ordem, o caos
Te fuçaria onde não era chamada
Te roubaria os pensamentos tolos
Te daria os meus sonhos todos
Te perseguiria de noite na cama
Te despistaria de dia nas ruas
Te faria meu menino, meu senhor
Te ofertaria luxúrias, verdades
Te amaria, tanto, tanto...
Que talvez seria até pecado
Amar demais assim
Um só homem
Um só coração
Em uma só vida.




domingo, 4 de novembro de 2018

Fogo.

Você era o inferno a vista
Você era o fogo que consumiria
Você era a paz perdida
Você era tudo que poderia
De novo me fazer viva
Eu tão cheia de Mortes
Você tão cheio de Ira
Poderíamos renascer o fogo
E derrotar as cinzas.

Amor de mentira

O nosso amor de mentira
Sabia
Quanta verdade
Nossa pele exalava;
O nosso amor de mentira
Sabia
Quanta verdade
Revelava.
O nosso amor de mentira
Vive.


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Nosso medo.


O nosso medo
Da vida
Era o medo
Dos homens
O nosso medo contido
Era o medo
Daquelas palavras
Que um dia já foram ditas
Mas nunca esquecidas
O nosso medo
Revelava verdades
Inconfessáveis.

(Mariana de Almeida).

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aos espectadores.

Dei todo o meu ouro, a minha essência
Para quem apenas se divertia
Com o meu grito, com a minha dor
Falei brincando o que era sério
Todos riram e brindaram
Os imbecis queriam pão e circo
Eu, em pleno Coliseu, entre os leões,
Sabia que com palavras não venceria
A morte.


15.10.2018.

A imagem pode conter: atividades ao ar livre

Sós.

Quer isolar-se? Questione-se.
Mas não se iluda, somos sós!
Do útero aos sete palmos da terra
Sós, absolutamente sós
Compartilhamos apenas
Quando eles permitem
Ideias, espaços e afetos
Ou quando eles não sabem de nós.


15.10.2018

Papai e mamãe.

Papai morre de medo da violência
Por isso enche a casa de cadeados
Papai morre de medo da vida
Por isso fica trancado no quarto
Noite e dia evitando perigos
Papai compra carro de luxo
E depois tem medo de colocá-lo
Para andar na rua, absurdos
Talvez traumas da ditadura...
Mamãe ainda é da monarquia
Tem uma sala de luxo vazia
Sempre a espera de visitas
Que nunca viriam
Tão triste, tão vazia, tão antiga
A poeira e o tempo fizeram proveito
Da sala de visitas vazia
Enquanto a família perecia
Sem um amigo, sem um bandido...


15.10.2018

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Passado.

Agora roubaram o passado
Esqueci a memória
Em algum canto da sala
Agora me perdi para sempre
Se não sei quem eu era
Como encontrar quem seria?
Agora está tudo confuso
Não me parece ser o futuro
Tudo tão parecido com o que já foi um dia
Tão diferente do que era certo para ser
Agora me pararam na rua
Insistem em me incomodar
É a polícia, eles não me deixam em paz
Me pararam em uma blitz
Me colocaram uma arma na cabeça
Sim, é uma arma, parece um fuzil
O comandante começa a gritar
Ele me pergunta tantas coisas que não sei
Eu realmente não me lembro de nada
Ele me pede a identidade
Eu a perdi, não adianta mais procurar
Não sei onde a deixei pela última vez
Esqueço-me lentamente de tudo
Mas lembro-me da palavra futuro
Fuzilada à queima roupa bem na minha frente
Ataque soviético, eles diziam e riam
Meu corpo tremia
Eu estava surda do presente
Eu estava morta para sempre
Impossivel lembrar de quem fui
Eu só queria um cigarro
O último cigarro, eu sei
Seria o melhor de todos
Eu agradeceria, sempre agradeci
Eu não poderia mais lembrar
Só me restava esquecer
Para sempre no passado
A minha identidade
Morta.

Imagem: Cena do Filme "Ensaio sobre a cegueira", inspirado no livro de mesmo título do José Saramago,  filmado em são Paulo, nas margens do Rio Pinheiro.

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Sonhos.

É alto o preço
Que pagamos
Pelos sonhos
Que não consumimos;
E pelos bens
Que compramos
Ao vendermos
Nossas almas
No mercado clandestino
Da felicidade
Inatingível.

♫ I'm in heaven

As guerras são sempre
Profundamente devastadoras
Levam corpos, almas, peles
Olhos, lágrimas, abraços, mãos
Levam tua casa, tuas coisas
Aquele teu disco preferido
O teu livro de estimação
A tua fotografia preferida
As guerras levam nossa alegria
Nosso desejo por pipoca, cinema
Matam nossa sede de amor e de cerveja
A guerra traga o nosso último cigarro
E joga as bitucas ainda acesas pelo chão
A guerra desarrumou para sempre meus cabelos
Minha cama, meu armário de coisas inúteis
A guerra debochou das minhas poucas coisas
A guerra fez estragos e não terei mais tempo
Deixarei tudo para depois
O quarto, a cama, os cabelos
As guerras são assim,
Uma tempestade de areia
E meus olhos estão fartos
Deixo para vocês o final da vitória
Fico com Ella and Louis Armstrong
Now, I am in heaven ♫
Heaven, I'm in heaven ♫
And my heart beats so that I can hardly speak ♫
And I seem to find the happiness I seek ♫
When we're out together dancing cheek to cheek ♫♫


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