sexta-feira, 3 de junho de 2016

A Poesia.



Há os que buscam a religião
Há os que buscam os amigos
Há os que buscam os amantes
Há os que buscam os bares,
Há os que buscam os milagres
Mas eu não busco nada.
Eu não colho mais absolvição
Eu não colho mais ingratidão
Eu não colho mais solidão
Eu não colho mais olhares
Eu não colho mais falsos milagres
Eu colho a poesia, ignorada,
Deixada no canto do chão
Daqueles que passam e vão
Em vão?


(Mariana L. de Almeida)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sonho.


   As vezes eu sonho com você e não é quando eu quero e sim quando sem mais ou menos acontece. As vezes eu precisava tanto falar com você que ao deitar lhe dedico mil preces pedindo que venha a noite me visitar. Eu preciso confessar, pode ser terrível eu sei, mas os mortos aparecem e você as vezes aparece para mim. Pois bem, essa noite você veio no meio de uma confusão, as pessoas transitavam sem parar ao nosso redor, falavam alto e gesticulavam, cada qual com suas histórias e anseios. Você caminhava depressa e eu tentava te alcançar, meu coração doía apertado, você olhava para trás e me sorria, aí como doía cada sorriso seu. Aquelas pessoas todas do nosso pequeno mundo atrapalhavam nossa discussão, enquanto você apertava o passo e o tempo tão incerto, outono mais parecido com inverno, um vento gelado que machucava a pele, meus lábios estavam rachados e a língua ao tocar o canto da boca sentia o gosto de sangue.
   No meio da nossa conversa, entre pessoas passando, apareceu um semáforo com a luz vermelha piscando, você parou e segurou forte minha mão, a sua estava quentinha e me trouxe alívio imediato, ficaria o resto da vida alí aguardo o sinal verde do semáforo abrir.
  Nos olhamos com ternura, sorrimos, depois gargalhamos e depois ainda de tanto rir nos contemplamos num profundo silêncio.
    O sinal abriu e voltamos a caminhar depressa, as pessoas também, eu queria te contar com calma todas as novidades do novo trabalho, do livro, da viagem, de como te rever estava sendo maravilhoso... eu queria tanto te agradecer!
    Infelizmente a pressa, a rua, o barulho dos carros e motos, a velocidade, o vento que aumentava e uma neblina terrível que se formou na rua onde minha visão foi perdendo o foco e a nitidez, senti um imenso abismo se abrir em meu peito, pois sabia que não te veria mais. Senti dedo por dedo escapar de sua mão, um por um foi escorregando enquanto você aumentava o passo e eu num desespero sufocante não consegui gritar seu nome pedindo um último olhar. Você se foi sem pestanejar, sumiu na neblina e eu acordei encharcada de suor e lágrimas de alívio e saudade. Eram quatro horas da manhã, o vento lá fora uivava, fechei bem a janela e voltei para a cama pensando que na verdade os mortos continuam bem vivos dentro de cada um de nós.




(Mariana L. de Almeida).

terça-feira, 31 de maio de 2016

Mulheres.


Mulheres fracas, braços fortes
Mulheres fracas, pernas fortes
Mulheres fracas, mãos fortes
Pedreiras, parideiras, benzedeiras
Boleiras, rendeiras, curandeiras
Professoras, escritoras, agricultoras
Paisagistas, analistas, estilistas
Doutoras, assessoras, contadoras
Secretárias, estudantes, atrizes
Mães, amigas, amantes, dos lares
Solteiras, acompanhadas, casadas
Abandonadas, enganadas, humilhadas
Ridicularizadas, estereotipadas, estupradas
As vezes bem amadas, bem acompanhadas
As vezes bem cuidadas, apoiadas
Algumas caminham sempre de mãos dadas
Mulheres fracas, somente quando dominadas.
Mulheres fracas, somente quando suas almas foram assassinadas.

(Mariana L. de Almeida.)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Tempo.

Não desperdicemos o tempo
Precioso e raro, instantes no espaço
Com amores vagos e rasos,
Intensidade é tudo que marca
Na carne os momentos de felicidade.
Sejamos intensos.



(Poema e Fotografia: Mariana Lima de Almeida).



Tentamos fazer o amor emergir da nossa completa e estúpida solidão.
Tentamos extrair amor de pedras colecionadas que carregamos no bolso fundo da calça.
Esquecemos que nós, colecionadores de pedras, amamos mais o caminho que a chegada.
Na chegada finda-se o acúmulo de pedras que insistimos em colecionar.


(Mariana L. de Almeida)



Hierarquia.

Em todas as rodinhas
Em todas as panelinhas
Em todos os grupinhos
Rola uma hierarquia
Não, não é natural...
É só soberda e ego
Vaidade e dor.
Eu fico com os de baixo
Eu ando com as ralés
Com os que choram
Gritam e declamam
O Amor!



(Mariana L. de Almeida).

Meu pai.

Hoje vi meu pai chorar, se emocionou ao conhecer meu futuro lar, é um apartamento pequeno, mas charmoso e aconchegante. Ainda falta muita mão de obra e reformas, compra de móveis, luminárias, chuveiro, armários e preenchê-lo com muitas histórias. Mas calor humano não há de faltar, a começar pela primeira lágrima do lar, lágrima do meu pai que veio me abençoar.
Te amo meu pai, obrigada por tudo.




(Mariana L. de Almeida).

O filho que não fizemos.


O filho que não fizemos vive sempre ao meu lado
O filho que não fizemos gerou-se pela ausência
Nem sangue, nem veias, nem nada.
Gerou-se pelos ares, azares
Mas sussurra enquanto caminha ao meu lado
Nos acusando, de fato!
Aquela foda infeliz foi incapaz de gerar,
Semear vida e florir.
Aquela foda infeliz gerou somente rancor
Daquele encontro de pele e dor
Foram palavras expostas, promessas falsas
Um amor canalha que marca na alma como faca.
O filho que não fizemos fez-se por si só
E foi abandonado como lixo jogado no mato
Ainda que jogado sem ser fecundado
Pior que feto abortado, talhado
Insiste em crescer e viver ao meu lado.

(Mariana L. de Almeida).

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Da vida.

Da vida, só quero a liberdade
E com ela eu decido
Com quem dividir asas, voar alto
Não a divido com quem vem
E se impõe ao meu lado...
Assumo a aterrissagem,
Bagagem e o preço da viagem
Caminho tantas vezes calada
Sigo meu rumo, minha estrada
O meu porto não é seguro
Nem banhado de águas calmas
Sigo adiante, nau à deriva
Invento mil cais em que poderei chegar
E hastear minha bandeira, finalmente, de paz.


Mariana L. de Almeida.

(Fotografia: Gianfranco Lacaria, Rio Lafferty próximo ao Porto da Irlanda.)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ser peixe.

Facebook cada dia mais chato
Narcisista e reacionário
Difícil sair desse quadrado
A vida passando
E eu aqui parada 
Medindo em cada Like
Uma ruga a mais na face.



Queria vender meu peixe
Como faz toda essa gente
Mas pescadora não sou
Nem dessas gente sei ser
Então só me resta crer
Que dessa rede eu sou o peixe.


(Mariana L. de Almeida)

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