quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A carta.



Primeiramente peço que tenha calma, calma é tudo que você precisa para ler, e depois te peço o pior, o mais difícil, o mais doloroso e o mais libertador que é o seu perdão.
Não te peço compreensão, te peço perdão. E sei que o que peço é penoso demais e gostaria de evitar a qualquer custo, mas não tive outra saída, não tive escolhas e assim aconteceu e me libertei.
Querida, eu realmente me cansei, todos esses anos lutando contra tudo e todos, sempre perdendo todas as batalhas, me desfazendo dos meus sonhos, meus pequenos prazeres, minhas amizades caras, meu trabalho intelectual, minhas noites fiéis e companheiras, meus porres de paixão e poesia, tudo se foi e eu fiquei só, eu fiquei completamente só e como dói ser só, mas assim como mandavam eu continuava, eu trabalhava, eu caminhava, eu almoçava, eu lia e respondia e-mails, não todos, só os que mais custavam a nós e nossa família, eu tentava ser um homem normal sem muitas vaidades, eu me policiava o tempo todo julgando minha conduta moral para ser a mais correta possível, pois, quando um homem perde a razão o instinto toma conta, eu frequentava os melhores psiquiatras em busca de alguma recompensa, essas recompensas que as igrejas prometem, que as mães prometem aos seus filhos e os amantes prometem também um ao outro, mas nunca recebemos recompensa nenhuma meu bem.
Quando não havia no mundo tantos meios de comunicação, a internet era papo de bicho grilo futurista, eu podia escrever e ser lido, todo poeta era reconhecido, mesmo que fosse só no boteco onde se frequentava e éramos amados pela nossa arte. Ah isso foi no início dos anos 70, a arte era diferente, a gente amava os livros, o cheiro deles, as páginas amareladas, um livro era objeto de muito respeito, mas hoje? O que é um livro hoje? O que é um velho reclamando a falta deles? Eu sou como os livros de páginas amareladas pelo tempo...eu amarelei meu bem.
Como disse antes, não peço sua compreensão, só o seu perdão.
Perdão por nunca te dar uma recompensa.
De lá para cá, todas as coisas mudaram no mundo, só eu que não, tudo ficou mais uniformizado ainda, tudo virou digital, basta um dedo, um clique e lá se foi, eu tenho pena de todos que vieram depois, eu tenho pena dos nossos filhos, de suas angústias que eles não sabem de onde vem e eu sei, sei sozinho e calado, eu tenho mais pena ainda dos que virão depois que nem sei se angústias sentirão, talvez venham informatizados o suficiente para não sentirem mais nada...
Ah como sinto pena meu bem, sinto pena de você que não sabe nada disso, sinto pena de toda sua beleza não explorada e guardada pra mim...você não deveria meu bem se doar tanto assim.
Por isso, te escrevo essa carta para me despedir e agradecer tudo o que fez por mim, mas o mundo meu bem, não me tratou tão bem quanto você... Foram dias perdidos, trabalhos negados, dinheiro sempre escasso, meus porres proibidos, a saúde já debilitada, sexo então, nem pensar.... Acabou meu bem, os dias melhores ficaram para trás e lá talvez eu fui feliz.
Deixo para você meus poucos bens e espero que você não os trate tão bem assim, se preciso venda-os, gaste-os e viva por mim.
Deixo também meus pequenos pertences, o terno pode usar para me enterrar, o relógio pode leiloar ou entre os filhos sortear, nossa aliança você faça o que quiser, meus cigarros ofereça a quem puder gozar e o resto são só restos.
Hoje esse tempo acabou para mim e não há motivos para tristezas nem vendavais, assim eu quis.
Perdoe-me meu bem, fique junto dos nossos....Adeus.



Crônica de Mariana L. de Almeida.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ser mulher.



Gosto de ser mulher;
Das coisas simples de ser mulher;
Um livro novo para ainda começar;
Uma música a despertar e me emocionar;
Um olhar que me lance chamas para eu ainda acreditar;
Um almoço de domingo, uma garrafa de vinho tinto;
Realizar meu trabalho e me sentir capaz;
Poder ter meus segredos, meus sonhos e minhas coisas;
Ficar por horas sozinha na cama a sonhar;
Pensar em você, imaginar você e ainda querer;
Rir de mim, das besteiras que já fiz;
Receber os filhos quando chegam da escola;
Dar banho, secar e depois os cabelos escovar;
Olhar os cadernos, estudar junto, pegar no pé;
Assistir TV, disputar o computador, desligar o videogame;
Depois beijá-los e abraçá-los sem ter fim;
O que mais eu poderia querer para mim?
A vida poderia ser bem mais difícil;
Não posso dar-me o direito de reclamar;
Sou feliz, posso ser mais, se me dedicar;
Se souber o que quero, se souber para onde vou;
Sei que também sofro, pois humana eu sou;
Passo muitas noites digladiando com meus inimigos;
Meus maiores medos, futuro, saúde, sucesso;
Até quando conseguirei vencê-los?
Mas deixo algumas missões para meu amigo Tempo;
Ele é meu chefe superior, ele é meu líder;
Quando não posso mais, ele é quem pode;
E vou vivendo assim meu dia-dia;
Enquanto isso, vivo a dor e a delícia de ser uma mulher;
A delícia de amar, amar, amar e infinitamente amar.

 02/07/2010.
Mariana Lima de Almeida.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Almoço de família.

Estava lançada a grande guerra para Adley, assumir suas posições políticas e feministas para sua família tradicional, burguesa e careta. A guerra seria impor respeito as suas escolhas, afinal já completara 33 anos, estava no auge da sua liberdade, criatividade, sexualidade e mil ideias que revolucionavam sua maneira de entender o mundo e viver a vida. A vida era uma experiência única, sem direito a volta, era um bilhete para essa grande montanha russa.
A família questionava Adley sobre os homens, os namoros, sobre casamento, era sempre aquela mesma ladainha burguesa, até que num almoço de família onde era comemorado o aniversário da mãe de Adley, ela declarou: - "Casamento para mim é loteria, aquele sonho hollywoodiano de você conhecer aquela pessoa super linda, gostosa, bom caráter, evoluída, instruída, cheia de cultura, histórias boas para contar e ainda trabalhador, que topa todas com você e ótimo de cama! Ou seja é mais difícil que loteria, é utopia mesmo...hahahaha"
Seus pais se entreolharam com ar de reprovação. Adley indagou: -"Não estou certa? É verdade ou não? Hipocrisia total esse lance de casaram e foram felizes para sempre, bom seria".
Mas o pai imediatamente respondeu: -"Isso porque você é uma moça egoísta e infantil! Formar uma família é a coisa mais nobre que um homem pode fazer. Ou por acaso o certo agora é ser feliz sozinho? Cada noite em uma cama diferente? Com homens que nunca a valorizarão? Que nunca vão querer te assumir?"
Adley responde: "Mas eu é que não quero assumir jamais um homem que pense assim pai! Muito melhor morar com uma amiga, dividimos as contas, cada uma tem seu espaço, uma respeitar a individualidade da outra, uma apoia a outra e vivemos em paz assim. Sabemos que não ganharemos nessa loteria do amor perfeito pai".
O pai esbravejou: -"Imagina o que os vizinhos devem comentar, né? Olha as solteironas aí, as sapatonas! É isso que eles devem falar!"
-"Papai o que os vizinhos pensam ou imaginam não é problema meu! Eu não teria problema nenhum em assumir estar apaixonada e vivendo com uma mulher, mas não é o que está acontecendo! Somos amigas e dividimos um apartamento, trabalhamos e pagamos nossas contas, somos livres e talvez isso incomode as pessoas, não escolhemos viver em uma prisão machista, não queremos aprovação ou não de um homem, não queremos posar de esposa perfeita , mãe perfeita e brincar de casinha para ser sempre cobrada e quase nunca valorizada" respondeu Adley já chateada com o tom da conversa.
-"Tudo para você é hipocrisia, minha vida não foi uma hipocrisia nem a da sua mãe ou foi? Ou eu sou o único que não sabe a grande merda que viveu? Será que eu fui tão desgraçado assim? Será que minha mulher me odeia e eu não sei? Tudo que vivi, acreditei e planejei não passou de mentira? Os filhos crescem e mostram a grande merda que foi todos os sacrifícios feitos....essa é boa...geração sabe tudo. Não sabem as crises que passamos, os medos que enfrentamos, as inflações, o desemprego, o medo de faltar algo para você e seus irmãos. Agora não tenho nem o direito de ter um neto? Por que? Porque a maldita geração Y não pensa em nada a não ser no prazer de agora, só agora, e foda-se tudo. Saiba que a velhice vai chegar para vocês também e se sua amiga de quarto não estiver mais aqui? Quem cuidará de você? Quem segurará sua mão? Eu e sua mãe já teremos fechado os olhos graças a Deus! Quem cuidará de você velha e senil?" E levantou-se da mesa em direção à varanda onde costumava fumar seu charuto para espairecer enquanto olhava a cidade a sua frente.
Adley se sentia angustiada, sempre que era dia de almoçar na casa dos pais era atacada pela ansiedade, mãos suadas, tensão, respiração ofegante e um desejo imenso de engolir a comida e sair dali. Ela amava seus pais, entendia a história deles e sabia que essa mesma história não cabia para ela.
Mexia no celular para a hora passar e desejava um cigarro, mas tinha esquecido no carro, pensou em descer apanhar, mas decidiu esperar e fumar depois, afinal era outro assunto chato, responder as mesmas perguntas de quando ela iria parar de fumar.
No final, após a sobremesa, os nervos se acalmavam, o irmão sempre intervinha com alguma notícia sobre o futebol, a mãe comentava sobre algumas medidas do governo, tomavam um licor e aos poucos o clima familiar voltava. Já combinavam um novo almoço onde certamente novos assuntos seriam discutidos e quem sabe compreendido por todos.


(Mariana Lima de Almeida).









Amarelo.



Amarelo é caramelo
Amarelo luz do sol
Amarelo cor do tom
Amarelo cor do som
Amarelo gira o sol
Amarelo girassol
Amarelo
Amar é elo.



segunda-feira, 30 de novembro de 2015


Envelhecer.


Você percebe que está ficando velha quando encontra um conhecido, este lhe deseja bom dia e pergunta educadamente se está tudo bem.
Habitualmente desejamos bom dia e respondemos tudo bem e você? E a pessoa responde tudo sim e ponto final.
Mas quando começamos envelhecer não há pontos finais, foi quando numa manhã nublada, minha vizinha fez a tal pergunta por educação: Bom dia, tudo bem?
- Bom dia! Tudo nada, uma gripe que peguei que Deus me livre, também com esse tempo maluco né? Quem sobrevive imune? Olha, vou te falar, o ser humano, que de humano está mais parecido com o capeta, enquanto não destruir o planeta todinho não vai sossegar. Aí não tem como aguentar, o corpo sente, sofre e adoece. E quando chega a conta da farmácia? Misericórdia! Aí sim é para matar qualquer um, porque eu não sei não viu, esse governo conseguiu acabar com tudo, a inflação está lá nas alturas.... O que que é isso? Pobre não pode mais ficar doente não, eita Brasil velho sem porteiras! E a senhora, que está achando do governo? Acha também que ela cai? Cai nada! O que cai é o padrão de vida dos brasileiros, né não?
E lá fiquei mais uns bons dez minutos dialogando meu monólogo com minha vizinha que passava apressada para seus afazeres, quando indelicadamente destrambelhei a falar sem parar minhas opiniões sobre minha realidade que não a interessava nem um pouco.
Então como um anjo minha filha surge a porta e diz: Mãe, você pode vir aqui um pouco?
Me despeço da minha gentil vizinha e vou toda inocente ver o que ele precisa, quando a mesma me espera na sala me fuzilando com os olhos e diz: "- Pô mãe, que sem noção você! Precisava falar aquele monte de asneira para a vizinha que só te desejou bom dia? Não escutei ela perguntar como vai a droga da sua vida?" e virou as costas e foi atender seu celular no quarto, enquanto eu gritava: -Olha aqui menina, não te criei sozinha com o bom e do melhor para você falar assim comigo não, que absurdo é esse? Te criei sozinha, sabia? Seu pai era visita, isso mesmo VI SI TA! Eu ali todos os dias, na alegria e tristeza, com saúde ou com febre, nas notas altas e baixas do colégio, nas festas de final de ano, quando você ganhou sua primeira medalha, não foi ninguém não, foi eu! Mas hoje em dia ninguém reconhece mais nada não, olha... O ser humano, vou te falar, o ser humano é o bicho mais egoísta que existe porque...
- Mãeeeee, eu tô no telefone, fala mais baixo!
............
- Puta que pariu! Não é que estou ficando uma velha e coroca mesmo! Vou fazer uma caminhada que eu ganho mais e juro por Deus não falar com mais ninguém, nem bom dia vou dar! Melhor ser chamada de antipática que de velha! Fui.




(Mariana Lima de Almeida).

Os dias.

O mundo desaba lentamente sob meus pés
Notícias ruins, natureza em fúria, violência
Brigamos arduamente por nossos ideais
Morremos de sede, sedentos por justiça
Morremos de fome, famintos por ternura
Morremos de dor, feridos pelo desamor
O mundo desaba lentamente sob meus pés
Meus pés estão feridos e sangram
E eu preciso correr, correr mais
Sede, fome, violência e dor
E eu preciso vencer todo meu temor
E eu preciso correr e correr mais
Ajudar meus irmãos caídos no chão
Certa de que vou conseguir chegar
Onde todos dizem estar.
Estão?


(30/11/2015).

Peixe

Mundo, mundo tão pequeno
Menor ainda é o mundo virtual
Postou na rede
Agora já era
É peixe!...
E vamos todos degustar.



(Mariana Lima de Almeida).



Postagem em destaque

Sobre escrever.

Escrever é preciso, ser lido já é outra coisa Escrever é necessidade, impulso, grito Ser lido é invasão, dedo na cara, condenação Jul...