A vida é urgente!
Não posso esperar mais
Não posso deixar para lá
É urgente, urge, uiva, urra
É pungente!
Não posso mais negar
Quero me entregar
Quero ceder aos prazeres todos
Quero pecar, ser amaldiçoada
Ser para sempre maldita
Pela língua venenosa do povo
Deus me livre ser bem falada
No pequeno vilarejo dos humildes
Dos tristes, dos medrosos, dos ninguéns
Quero deitar-me em todas as camas
Das mais simples às mais pecaminosas
Quero desvendar-me, descaber-me
Desrebelar-me, desnudar-me, desdizer-me
Quero não ser nunca mais, nunca mais
Essa coisa medonha imposta de bons modos
Quero perder-me de amores, de afetos,
De salivas, de olhos, de mãos, de afagos
Quero a verdade, somente a verdade, a única
A definitiva, a mais cruel e impiedosa,
A seiva mortal do deleite dos teus braços
Que tanto procurei, em vão, em becos,
Em noites, em buracos, em desertos,
Em imensos vazios de dor, de corte,
De adeus, de acenos, da morte, da vida.
(Mariana de Almeida)
Um diário denunciando através de poesias e crônicas as dores e delícias de uma mulher face ao século XXI.
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